6 de janeiro de 2013

Homilia 3

Não é bem um esboço, mas uma "transcrição" (um texto corrido que eu usei de base para um esboço). E é bom retomar a série depois de tanto tempo com uma mensagem que foi dada hoje, também depois de muito tempo sem ministrar (sei lá, acho que faz mais de dez anos). Quem me acompanha no blog e e outros lugares reconhecerá temas que me são caros e soibre os quais Deus tem enchido meu coração, assim como trechos de postagens. É uma pregação temática, obviamente, já que não sou um "pregador regular". E o texto base pode aparecer apenas como um "pretexto". Mas não o conteúdo.

A mensagem foi ministrada em 06/01/2013 na Igreja Presbiteriana de Canela. Espero que seja apenas a primeira...

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VIDA ABUNDANTE

Texto base: João 10.10 

O ladrão vem somente para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

Tema: vida em abundância. Abundância é, em grego, perissos, que pode ser traduzido também por excelente, ou mais excelente. É sobre viver esta vida em excelência, uma vida abundante, que quero meditar com vocês esta noite.

Contexto: Jesus é o Bom Pastor. Ele é quem dá a vida por suas ovelhas, para que estas tenham vida. Não uma vida qualquer, uma vida comum, mas uma vida que um pastor deseja às suas ovelhas. Dito de outra forma, uma vida que um Deus, e não um deus qualquer, mas o Deus Vivo, o Todo Poderoso que, entre outras coisas, é Todo Amor e cuida dos Seus conforme Seu Amor.

1. Felicidade

Um primeiro aspecto de uma vida abundante é a felicidade.

"Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados" (Mt 5.4).

O cristianismo é cheio de paradoxos. Este é apenas um deles: felizes os que se entristecem. A felicidade não existe sem choro. E como é isto?

À noite todos os gatos são pardos. É um dito popular. Já ouviram? Pois é, de fato, vivemos todos em trevas. E na escuridão em que vivemos, olhamos aos nossos semelhantes e os consideramos todos iguais. E nós os vemos pardos. Por isso nos consideramos melhores que eles. Enquanto eles fazem isso ou aquilo, e quase tudo errado, nós fazemos assim e assado, quase tudo certo. Somos bons e, embora esteja escuro e não possamos nos ver claramente, sabemos de alguma forma que não somos pardos.

Mas então, um dia, uma Luz se aproximou de nós. Primeiro fugimos dela, porque ofuscava sobremaneira nossos olhos. Mas a Luz se nos apresentou de tal maneira, que se tornou irresistível para nós. Começamos a ver esta Luz e por Ela. Pois ela iluminava tudo ao redor e então pudemos olhar aos nossos semelhantes como eles são. E eles de fato são pardos. Mas não porque esta é sua cor natural, mas que eles estão sujos de lama. Não até o pescoço, mas tão cheios de lama por todo o corpo que até o branco dos olhos parece encardido. Mas a Luz ilumina a nós mesmos, e de um modo que voltamos o olhar mais a nós que a eles. E vemos que nós somos tão sujos e tão pardos, ou mais, que  os outros gatos. Vemos que esta sujeira está impregnada em nós de tal forma que não podemos nos livrar dela.

E choramos. Choramos copiosamente. Choramos com uma dor que é impossível expressar a quem nunca a sentiu. 

Mas a Luz que nos ilumina é o mesmo Bom Pastor que ama e cuida das ovelhas e quer o melhor para elas. E Ele as limpa. Ele faz dos gatos pardos gatos brancos como a neve. Purificados de toda impureza.

A tristeza que nos dói tanto é a mesma que nos dá uma alegria indizível!

Assim é quando da conversão, mas assim é também para a santificação. A vida que vivemos tem seus altos e baixos. E a cada pecado cometido há a tristeza do arrependimento e a alegria do perdão. Por isso, se você peca e não se entristece, cuidado. Pode bem ser que você viva uma outra religião e não a do Cristo.

Eu falei em paradoxos. E o paradoxo de uma vida abundante em felicidade é este: que felicidade não implica em ausência de tristeza. Ao contrário, felizes são os que choram, pois eles conhecem a consolação de seu Deus.

O primeiro aspecto de uma vida abundante: felicidade.

2. Gratidão

Um segundo aspecto da vida abundante é a gratidão. E eu quero mencionar esta gratidão de forma qualitativa e de uma forma quantitativa.

Qualitativa. 

Se vimos que nossa felicidade vem de uma tristeza profunda, uma tristeza por nós e uma felicidade por Deus, então percebemos que nossa felicidade não depende de circunstâncias. Seja o que for que nos sobrevenha, sabemos que tudo coopera para nosso bem (Rm 8.28). Então podemos ser gratos por qualquer coisa que recebamos, boa ou ruim.

Quando a calamidade veio a Jó, e ele perdeu tudo, bens e filhos, ele ainda orou em gratidão a Deus dizendo que nú veio ao mundo e nú voltará à terra. Em outro trecho, quando sua esposa sugere que ele amaldiçoe Deus e morra, ele responde que ela falava como uma doida. Diz ele: Se recebemos com gratidão o bem de Deus não saberemos também receber o mal? (Jó 1.21 e 2.10)

Não importa se bem ou mal, somos gratos pelo que Deus nos dá. E, se mal, ora, não deixamos de ficar tristes. Lamentamos sim. Mas lamentamos em tristeza que não abala nossa felicidade e gratidão.

Habacuque sabia da angústia que viria e não deixou de se entristecer por isso. Mas é assim que ele sofre: "Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. O SENHOR Deus é a minha fortaleza, e faz os meus pés como os da corça, e me faz andar altaneiramente (Hc 3.17-19)."

Não importa o que temos, somos gratos a Deus pelo que nos deu.

Quantitativa.

Há quem não creia em milagres. Ao cristão não é necessário argumentar para provar que milagres acontecem. Mas temos ouvido muito que precisamos disso e daquilo, sempre com ares grandiosos. Por que?

Como classificar o tamanho ou a grandiosidade de um milagre? Que é mais difícil? Um paralítico andar ou perdoar pecados? (Mt 9.1-8) Ou é mais difícil que o mar se abra do que as coisas simplesmente existam?

Eu não sei. Acho estúpido que se questione tal coisa. Mas se é para eleger um milagre que seja o maior de todos, talvez pudéssemos falar da própria criação, talvez da encarnação. O eterno no tempo, mais um paradoxo e algo acima do nosso entendimento. Mas eu elegeria a minha salvação. Pois eu sei do meu pecado e da total impossibilidade da minha imundície ser conciliada com a pureza do Santo. Mas Ele não só Se reconciliou comigo como ainda me chamou a viver em comunhão com Ele eternamente.

Esta é a maior dádiva que alguém pode receber. E, tendo recebido esta, qualquer coisa que venha depois, quer seja mesmo um milagre, quer seja algo absolutamente comum, será com gratidão recebida.

Pois nem tudo é milagre, mas tudo é espiritual. Entender isso é a chave para ser grato e repetir com Paulo: "Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1.21).

Não importa quanto temos, somos gratos pelo que recebemos.

O segundo aspecto de uma vida abundante é a gratidão.

3. Prazer 

Se somos felizes acima do que nos acontece, e se somos gratos sem importar o que ou quanto nos sobrevenha, então podemos ter prazer em tudo o que vivemos.

A primeira pergunta do Catecismo de Westminster é: "Qual é o fim supremo e principal do homem?" A resposta é mais eloquente do que tudo que eu disse até aqui: "O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lO para sempre".

Tudo é espiritual e se entendemos isso, tudo o que fizermos, desde as menores até as maiores coisas serão feitas pensando na glória de Deus. E glorificar a Deus, não importa o que façamos, é um prazer indescritível, pois é para a eternidade.

Um escarnecedor certa vez tentou me ridicularizar quando eu afirmei que tudo o que ocorre e tudo o que faço é para a glória de Deus. Ele usou termos piores, mas em essência ele me perguntou se ir ao banheiro fazer necessidades daria alguma glória a Deus. E como a sexualidade humana é uma área de intensos conflitos morais, ele me desafiou: quando você faz sexo, você está mesmo preocupado com a glória de Deus?

Para a primeira questão eu afirmo que todo uso correto do meu corpo glorifica seu Criador. Toda a atividade de manutenção deste templo do Espírito Santo é digna e O dignifica.

Para a segunda, ah, eu tenho prazer até mesmo em responder. Pois fazer amor com minha esposa é culto! É um prazer em nossos corpos sim, mas é também um prazer para nossa alma. É um prazer nos unirmos como é um prazer sermos um em Cristo.

E embora minha esposa fique ali toda vermelhinha, é mesmo bom ter este exemplo por ilustração. Porque somos um casal, unidos por Deus e estamos sob Sua benção.

Tudo o que fazemos é para Sua glória, mas só o glorificaremos se estivermos de acordo com Sua vontade. O sexo é uma dádiva de Deus, mas não se for de qualquer jeito e a qualquer custo. E isto, obviamente, vale não apenas para a atividade sexual, mas para toda a atividade humana.

Deus é muitas vezes pintado como um "grande estraga prazes cósmico". O cristianismo é muitas vezes pintado, até por alguns que se dizem seus membros, como um "não pode". Um cristão não pode isso, um cristão não pode aquilo. Mas o cristianismo é uma religião de alegria, de gratidão, e de gozo.

Tudo nos é lícito. Mas nem tudo convém. (I Co 10.23) É ao conhecer a Deus e nos conformar ao Seu Espírito que abandonamos aquilo que não nos convém com a mesma alegria, gratidão e prazer com que fazemos o que é lícito.

O terceiro aspecto de uma vida abundante é o prazer.

Conclusão

Conhecem a expressão carpe diem? Significa: aproveite o dia. É uma expressão muitas vezes usada por aí com um sentido bem antropocêntrico e bem hedonista (com vistas ao próprio prazer). Não queremos isso.

Mas o cristão é sim chamado a aproveitar o dia. Seja lá qual for a atividade que você tenha, um trabalho, uma viagem, um programa em família, namorar, malhar, jantar, cuidar do cachorro, sei lá... Não importa o que você esteja a fazer...

Aproveite o dia feliz!

Aproveite o dia grato!

Aproveite o dia com prazer!

Para a glória do seu Deus. 

8 de novembro de 2012

Sobre o mesmo chão

Os primeiros álbuns do Palavrantiga foram tão bons que a expectativa criada para “Sobre o mesmo chão” era altíssima. Comprei as músicas e aguardei ansioso o download, não sem um certo receio de me decepcionar, mesmo com alguns amigos já falando tão bem do novo trabalho.

Começo a ouvir e me enchem os ouvidos aquela mesma qualidade sonora aliada às letras que fogem do lugar comum e mediocridade do “faz chover”, mesmo quando mencionam a chuva que cai. Ah, expectativa mais que bem atendida! Gosto demais desta banda.

E por que gosto tanto de Palavrantiga?

Porque “agora tanto faz o que é sagrado. Nada importa se isso tudo não for antes santificado” (Sagrado). Afinal, que é o profano em oposição ao sagrado? Já não sou mais o mesmo, estou “distante daquilo que eu era, sem força, nem fé ou poesia” (De manhã). 

Conheci a Beleza quando ouvi a Voz que dizia “Segura tua alma, menina. Me espera, menina. Olha pra Mim, Te trouxe o bem. É a Boa Nova” (Minha menina). Então, diz minha alma, “é por isso que eu vou neste rio que corre sem pressa. Navegante que sou, sei que tudo é um presente pra ela” (Rio torto). E, enquanto navego, “vou subvertendo o mundo, amando a esperança que salta os muros e brinca arteira com tua criança” (Sobre o mesmo chão). 

Mas, também, eu não me engano. “De tudo quanto eu tenho pra dizer, eu digo muito pouco com as palavras. Eu presto atenção em Ti” (Boa Nova). Se falho, no entanto, meu espírito sabe: “antes, pede perdão“ (Antes do final).

E quando enfim ouvir chamar: “Vai, é a hora de ir. Tua fé abriu um caminho bom. Siga agora o teu sonho, vai” (Partiu), sei que “meu lar não está tão longe. Caminho certo que vou encontrar meu doce lugar na eternidade” (Meu lar).

Eu canto Palavrantiga, você canta o que?

Soli Deo Gloria!

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Notas:
1. Sei que meu texto não faz jus às letras, mas fica aqui minha reverência à banda como ação de graças ao Senhor pelas vidas destes caras.
2. Compre as músicas. Dê suporte aos músicos por seu trabalho. 

23 de julho de 2012

Bicicletas e eleição

Será que Deus escolheu seu filho para dar uma bicicleta? Caso a resposta seja afirmativa, como saber que sim? Afinal, todo mundo pode estar sinceramente enganado. E caso Deus tenha escolhido o seu filho, e tenha deixado o meu de fora? O seu filho é menos trapo do que o meu? Essa doutrina é muito difícil de aceitar... Será que vou pro inferno por causa disso? 

É assim que alguém, em anonimato, vem questionar a validade da doutrina da eleição (ou da predestinação, se levarmos em conta o contexto). O anonimato mereceria toda a reprovação que convém, mas também convém responder, pois o discurso é típico. Então eis-me aqui dando-me ao trabalho de comentar...

"Será que Deus escolheu seu filho para dar uma bicicleta?", pergunta-me. E respondo eu: meu Lucas tem uma bicicleta. Certamente o pai assim o quis. O Pai também. Meu Mateus ainda não. O pai já escolheu, mas o Pai ainda vai revelar. Se tal ocorrer, no entanto, é porque Ele realmente assim o escolheu. A vontade do pai, ainda que sua própria, não é livre da escolha do Pai.

"Como saber que sim?", insiste. E insiste mais: "Afinal, todo mundo pode estar sinceramente enganado". Ora, pergunto eu, como saber qualquer coisa? Se a resposta fosse negativa a pergunta seria ainda a mesma. Mas não precisamos de qualquer desespero cético: temos o Absoluto Deus. E, ainda mais, neste caso temos abundantes referências bíblicas que nos garantem que nada acontece sem o decreto divino. Mas deixarei epistemologia e teologia de lado. Pois é depois daqui que a coisa se torna mesmo interessante e típica.

Será o filho de outrem, sem a bicicleta, mais trapo que o meu Lucas? E será meu Mateus mais trapo que meu Lucas? Bem se vê que tais perguntas refletem o âmago mesmo da questão. E ela não tem a ver com predestinação e eleição, como bem já notava quem antes falou sobre isso. O problema é antroplógico. Mas é mais que assim tão teórico. O orgulho totalmente depravado tem seus efeitos, para nossa tristeza, mesmo entre nós.

Entretanto, a verdade é que meu Lucas é trapo, assim como meu Mateus. Eu os amo muito e ambos terão uma bicicleta, se assim o Pai permitir. Também, assim ambos são trapo como aquele outro que não tem a bicicleta. E, finalmente, para sair da ilustração e ir ao ponto, não é por ser mais ou menos trapo que meus filhos serão eleitos, mas pela Graça somente. Também não é por ser mais trapo que o outro será condenado, se o for, mas todos nós somos dignos dos tormentos eternos.

Pela Graça somente! E é somente pela Graça que podemos reconhecer que somos este trapo. Que somos todos igualmente trapo. Um trapo cuja imundície não pode ser limpa senão por Deus.

Certamente não é necessário conhecer a doutrina para ser salvo. Mas reconhecer-se trapo e ser limpo por Deus somente é necessário. Isto é aceitar a doutrina mesmo que sem conhecê-la. Porém, não aceitá-la, conhecendo ou não, é não reconhecer-se trapo imundo. Isto logo levará a pouca necessidade de limpeza... 

Ora, quem se pensa são irá ao médico? É bom pensar melhor, pois a estes o que há é mesmo o inferno!

SDG!

6 de março de 2012

Que será dos que nunca ouviram? Uma breve confissão

Esse é um assunto que sempre me incomodou bastante, a saber, o destino eterno daqueles que nunca ouviram falar de Cristo. Deixando de lado se os tais ainda existem hoje (particularmente, penso que haja) e outras questões parecidas, bem como as várias perspectivas sobre o assunto, vou logo resumir a minha posição: todos os eleitos, fatalmente, ouvirão acerca de Cristo por meio da pregação da Sua Palavra. Nem todos os que ouvem são eleitos, obviamente, mas todos os eleitos ouvirão. Ainda que digamos que cabe somente a Deus julgar tais pessoas, não somos autorizados, pelas Escrituras, a pensar que poderá ser salvo quem nunca ouviu de acerca de Cristo, uma vez que "a fé vem pelo ouvir" (Rm 10.17), sendo esta mesma fé um dom de Deus exclusivamente para os Seus eleitos (cf. Tt 1.1). Estes, por sua vez, vem a Cristo pela pregação (cf. 2 Ts 2.13, 14).


Há de se questionar em que consiste essa "pregação". De pronto, rejeito a perspectiva segundo a qual a revelação geral (criação, cultura, moralidade, etc.) é suficiente para a salvação, pois, se assim fosse, a fé em Cristo seria necessária apenas para alguns (sinceramente, não creio na revelação geral nem como meio salvífico extraordinário). Nesse quesito, penso em Cornélio, centurião romano sobre o qual se diz ter sido "piedoso e temente a Deus" (At 10.2), mas que precisou ouvir explicitamente acerca de Cristo por intermédio do apóstolo Pedro para ser salvo (ver todo o capítulo 10 de Atos). Rejeito, também, a noção segundo a qual a pregação pode ser entendida como o exemplo de vida dos cristãos ("conversão pelo exemplo", tão propagada pelos pietistas e místicos medievais), pois nossas vidas não podem ser melhores do que a pregação viva da Palavra de Deus.


Há, ainda, um equívoco a ser corrigido, e este tem a ver com a relação entre Decreto e Providência. Novamente citando o caso de Cornélio (somente para não citar todos os eleitos), não podemos dizer que ele já era salvo antes de ouvir a Palavra. Pelo decreto, sim, ele já constava entre os eleitos, mas não pela Providência, haja visto não ter chegado ainda o tempo da concretização do decreto. E o que é a Providência, senão os meios que Deus usa para alcançar aquilo que Ele decretou? Nesse caso, Cornélio precisou, na História, ouvir a Palavra, sendo regenerado pelo Espírito para que pudesse, então, crer e ser salvo.


Assim sendo, creio ser a pregação o meio providencial responsável por infundir fé no coração do eleito. Só a pregação? Bem, como já falei acima, se há exceções elas não são especificadas pelas Escrituras, pelo que me reservo ao direito de me ater apenas àquilo que nos é afirmado pela Revelação como regra, em vez de especular sobre a exceção. E me valho, aqui, do pertinente comentário de Calvino a Romanos 10.14 (..."e como ouvirão, se não há quem pregue?"). Ele diz que "o que Paulo está descrevendo aqui é somente a palavra pregada, pois este e o modo normal que o Senhor designou para comunicar sua Palavra. E se se argumenta, à luz desse fato, que Deus não pode dar-se a conhecer entre os homens só por meio da pregação, então negaremos que isto era o que o apóstolo pretendia transmitir. Ele estava transferindo somente a ordinária dispensação divina, e não pretendia escrever uma lei à sua graça" (ênfase minha). E me é muito claro, ainda na Escritura, que Deus sempre envia Seus arautos para os lugares em que há eleitos Seus para serem alcançados (cf. At 18.10; 13.48; Jonas e os ninivitas, etc.). Novamente citando o reformador francês (agora em seu comentário a Romanos 10.15 - "e como pregarão se não forem enviados"), "quando alguma nação é agraciada com a pregação do evangelho, tal fato é uma garantia do amor divino".


Por último, não penso que este seja o típico assunto que deva ser relegado apressadamente ao "mistério", como se as provas bíblicas acerca dele fossem insuficientes ou inexistentes. O máximo que posso dizer quanto aos que nunca ouviram é que cada um será julgado de acordo com a resposta que deu à luz que teve, mas não para uma possível absolvição. Para o quê, então? Bem, embora eu tenda a crer aqui em possíveis níveis de sofrimento no inferno (cf. passagens como Mt 11.22, 24; Lc 12.47, 48; 20.17), prefiro não arriscar ir além daquilo sobre o que a Escritura não lança senão faíscas.


Soli Deo Gloria!


 

28 de fevereiro de 2012

Quantas bicicletas Deus tem?

Já é o segundo domingo consecutivo que estamos estudando sobre a doutrina da predestinação na escola dominical em nossa congregação. E, apesar de se tratar de uma congregação presbiteriana, as dificuldades em torno da doutrina ainda persistem nos corações e mentes de alguns – tanto a dificuldade em entendê-la quanto (principalmente!) em aceitá-la. Conversando sobre o assunto com minha esposa em casa, ela me lembrou de um ex-pastor nosso, o qual gostava de explicar a eleição da seguinte maneira: imagine que eu tenho uma bicicleta, e vejo dois garotos na rua. Resolvo, então, dar minha bicicleta a um deles. Alguém poderia me questionar por que eu dei a um e não ao outro, ao que eu responderia dizendo que a bicicleta é minha, e a dou a quem quiser. Não levei em conta quaisquer méritos ou deméritos nas crianças, simplesmente escolhi uma para ser agraciada. Assim, pois, é com a salvação: Deus a dá a quem Ele quer e ninguém pode reclamar disso, pois é algo que pertence a Ele. Fiz questão de levar a ilustração para a classe, mas com a seguinte pergunta: tudo bem, mas... teria Deus apenas uma bicicleta? Na realidade, levantei a questão como que me colocando no lugar de alguém que não aceita a doutrina da eleição incondicional tal como é explanada pela fé reformada. E, com isso, acabei aguçando ainda mais a polêmica que já estava sendo travada ali, mas com a intenção de dar uma resposta depois, obviamente.

Respostas? Há, se levarmos em conta, dentre outras coisas, a relação suficiência-eficiência. Encontramos um bom exemplo disso nos Cânones de Dort, no capítulo que trata sobre a morte de Cristo e a salvação do homem por meio dela:

Esta morte do Filho de Deus é o único e perfeito sacrifício pelos pecados, de valor e dignidade infinitos, abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro.

Cânones de Dort, II.3. Ênfase minha.

Ou seja, embora a morte de Cristo seja “abundantemente suficiente para expiar os pecados do mundo inteiro”, ela é eficiente apenas nos eleitos, como o próprio documento diz em seguida:

Pois este foi o soberano conselho, a vontade graciosa e o propósito de Deus o Pai, que a eficácia vivificante e salvífica da preciosíssima morte de seu Filho fosse estendida a todos os eleitos. Daria somente a eles a justificação pela fé e por conseguinte os traria infalivelmente à salvação. Isto quer dizer que foi da vontade de Deus que Cristo por meio do sangue na cruz (pelo qual Ele confirmou a nova aliança) redimisse efetivamente de todos os povos, tribos, línguas e nações, todos aqueles e somente aqueles que foram escolhidos desde a eternidade para serem salvos, e Lhe foram dado pelo Pai.

Idem, II.8. Ênfase minha.

Isto posto, podemos voltar à nossa ilustração da bicicleta: Deus até teria mais para dar, mas resolveu não fazê-lo. E por que não o fez, sendo Ele mesmo bom? Penso ser justamente aí que reside boa parte do problema quando falamos da exclusiva soberania de Deus na salvação do homem. Aliás, a própria pergunta em si já apresenta um grave problema de perspectiva. Já disse algumas vezes que todo e qualquer queixume contra a doutrina da eleição incondicional reside no fato de que o homem se acha bom por natureza e, por conseguinte, merecedor da graça (a “bicicleta”) de Deus. Na realidade, Cristo morreu por mim porque eu merecia ser salvo. É quando o homem passa, então, a confundir a justiça de Deus com a sua própria.

Minha resposta à pergunta por que Deus, mesmo sendo bom não quis Se valer da suficiência da Sua graça para alcançar a todos os que jazem nas trevas é justamente porque a Sua justiça seria ofuscada pelo seu amor, visto que não seria manifesta. Ora, o pecado não poderia passar impune. Se passasse, Deus, que odeia o pecado, deixaria de ser justo e santo. Assim sendo, o amor de Deus não pode ser dissociado do seu corolário, que é a Sua ira, a qual Paulo diz que "se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça" (Rm 1.18). E quando o amor sacrifica a justiça, o que temos não pode ser o amor bíblico e divino, mas um amor defeituoso e totalmente incapaz de redimir aquilo a que se propõe. Poderíamos afirmar, ainda com base nessa passagem paulina, que privar Deus de Sua ira santa é suprimir a verdade (justiça) para que a mentira (injustiça) prevaleça.

Acho que deveríamos pensar duas vezes antes de querermos sobrepor nossos "trapos de imundícia" (Is 64.6) à pureza do Senhor. E antes de reclamar qualquer "bicicleta" a Deus, que déssemos uma atenção especial às palavras do profeta Jeremias: "por que, pois, se queixa o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus próprios pecados" (Lm 3.39). Mas isso, quantos querem?

Soli Deo Gloria!